Há textos que conhecemos tão bem que talvez tenhamos deixado de olhá-los com atenção. O Hino Nacional Brasileiro é um deles. Nós o ouvimos na escola, em cerimônias, em eventos esportivos e em diferentes momentos da vida pública. Conhecemos sua melodia e, muitas vezes, cantamos sua letra de cor.
Mas o que acontece quando olhamos com um pouco mais de atenção para alguns de seus versos?
É isso que vamos observar a partir de agora.
Os dois primeiros versos do Hino Nacional
Para muitos de nós, os dois primeiros versos do Hino Nacional já podem representar um desafio à compreensão. Veja:
Ouviram do Ipiranga as margens plácidas
De um povo heroico o brado retumbante, […]
Nos dois versos, há inversão da ordem mais habitual dos termos da oração. Esse recurso recebe o nome de hipérbato.
Se organizássemos os termos desse trecho em uma ordem mais próxima daquela que usamos no dia a dia, teríamos:
As margens plácidas do Ipiranga ouviram
o brado retumbante de um povo heroico, […]
A versão reorganizada desse trecho do Hino Nacional facilita a compreensão de sua estrutura e do que os versos dizem. Mas isso não significa que a construção original seja apenas uma maneira “difícil” de dizer a mesma coisa: ela é uma escolha de construção do texto.
Por que mudar a ordem das palavras?
No Hino Nacional, as inversões contribuem para a organização dos versos, para o ritmo e para a sonoridade. A posição das palavras também interfere na maneira como acompanhamos as ideias. Compare:
As margens plácidas do Ipiranga ouviram […]
Ouviram do Ipiranga as margens plácidas […]
Na primeira construção, encontramos o sujeito “as margens plácidas do Ipiranga” logo no início da oração. Já na segunda, começamos pela forma verbal “ouviram” e só depois descobrimos quem realizou a ação. A informação é essencialmente a mesma, mas o percurso da leitura muda.
No segundo verso do Hino Nacional, encontramos outra inversão:
De um povo heroico o brado retumbante, […]
Ao deslocar os termos, o verso apresenta outra organização sintática e sonora. A inversão, portanto, não está ali por acaso: ela participa da composição do texto. É justamente nesse momento que vale fazer estas duas perguntas:
- Como essa frase ficaria em uma ordem mais habitual?
- Por que o texto apresenta essa ordem?
A resposta dada à primeira pergunta nos ajuda a reorganizar os termos e compreender melhor a estrutura da frase. Já a resposta à segunda nos leva além da estrutura gramatical e nos permite observar os efeitos produzidos por essa escolha.
O que o hipérbato nos permite perceber?
O hipérbato nos permite perceber que a linguagem não funciona apenas pela escolha das palavras: a maneira como as palavras são organizadas também produz efeitos. Podemos antecipar um elemento, deixar outro para depois, aproximar ou afastar determinadas palavras. Em um texto literário, essas escolhas podem interferir no ritmo, na sonoridade, no destaque de determinados elementos e na experiência de leitura. Por isso, o hipérbato pode ser tão interessante quando observamos seu funcionamento dentro de um texto.
No Hino Nacional, por exemplo, a inversão da ordem dos termos não existe apenas para construir uma linguagem diferente daquela que usamos no dia a dia. Ela também produz efeitos que contribuem para a construção dos sentidos do texto. Quando olhamos com atenção para essas construções, aquilo que parecia difícil de compreender aos poucos começa a revelar sua lógica.
E essa talvez seja uma das coisas mais interessantes que um texto literário pode nos ensinar sobre a linguagem: as palavras não estão apenas dizendo alguma coisa; a maneira como foram organizadas também faz parte daquilo que o texto procura comunicar.
Quer aprender mais sobre a linguagem no Hino Nacional? Neste vídeo, analiso quatro versos do Hino Nacional Brasileiro e mostro como a linguagem contribui para a construção dos sentidos do texto.